Erikson e o desenvolvimento psicossocial

 

Erikson e o desenvolvimento psicossocial

 

Erik Erikson, 1902-1994. Este psicólogo defende que cada idade tem os seus próprios conflitos sociais e emocionais.

A ênfase nos aspectos psicossociais é o que caracteriza a perspectiva de Erik Erikson, quando comparada a outras perspectivas desenvolvimentistas.

De facto, apesar de discípulo de Freud, Erikson discorda da teoria deste psicólogo, em especial quanto aos seguintes aspectos:

Criticas a Freud:

1 Valorização exagerada da energia libidinal como chave explicativa do desenvolvimento.

2 Redução do desenvolvimento aos períodos que decorrem da infância à adolescência.

3 Subestimação das interacções indivíduo-meio.

4 Privilégio concedido à vertente patológica da personalidade.

Erikson apresenta uma teoria de desenvolvimento cujos pressupostos são os seguintes:

1. A energia que orienta o desenvolvimento é essencialmente de natureza psicossocial, pelo que valoriza as interacções entre a personalidade em transformação e o meio social.

2. O desenvolvimento é um processo contínuo que se inicia com o nascimento e se prolonga até final da vida.

3. A personalidade constrói-se à medida que a pessoa progride por estádios psicossociais que, no seu conjunto, constituem o ciclo da vida.

4. Em cada estádio manifesta-se uma crise que é vivida em função de aspectos biológicos, individuais e sociais. A crise consiste num conflito ou dilema que tem que ser enfrentado e resolvido, havendo uma solução positiva e uma negativa para cada um deles.

5. Os conflitos estão, desde o nascimento, latentes no indivíduo, só se tornando patentes e predominantes em fases específicas do ciclo da vida.

6. As soluções positivas das crises resultam em equilíbrio e saúde mental; as negativas conduzem ao desajustamento e ao sentimento de fracasso.

7 Ajustamento ou desajustamento não são situações ou estados definitivos.

Em fases subsequentes, o indivíduo pode passar por experiências positivas e negativas que contrariem as vivências tidas em estados anteriores.

Atentando nestes pressupostos, vemos que o conceito de crise é fundamental para a construção da personalidade.

De facto, esta desenvolve-se em função da vivência de crises sucessivas. Conforme for resolvida a crise, a pessoa situar-se-á mais ou menos adequadamente no contexto social, retirando ilações para o relacionamento consigo próprio, com os outros e com a vida.

A resolução positiva leva o indivíduo a dominar mais eficientemente o ambiente que o rodeia, a funcionar de modo mais consistente e seguro e a ser capaz de se compreender melhor a si próprio e aos outros.

As crises psicológicas que permitem ao indivíduo a aquisição de sentimentos, como confiança em si próprio, autonomia, iniciativa ou, ao invés, falta de confiança, sentimentos de inferioridade e de culpabilidade, surgem ao longo do ciclo da vida, distribuídas por oito idades em cada uma das quais aparecem, segundo Erikson, virtudes específicas.

Erikson emprega o termo virtude com o significado de uma aquisição positiva que ocorre quando é favorável a resolução da crise. Tal aquisição constitui um ganho psicológico emocional e social que se pode traduzir por um valor, por uma característica de personalidade, por uma competência, por uma qualidade pessoal ou por um sentimento.

As oito idades do ciclo da vida          1 2 3 4 5 6 7 8 

Por facilitar a compreensão da teoria de desenvolvimento de Erikson, começaremos por enunciar uma questão-chave, à roda da qual se ordenam os conceitos organizadores de cada uma das idades.

1ª Idade: Bebé (Do nascimento aos 18 meses)

O conflito típico desta idade é: confiança versus desconfiança.

O relacionamento com a mãe é da maior importância.

Se a mãe alimenta bem o filho, se o aconchega e acarinha, brinca e fala ternamente com ele, o bebé desenvolve o sentimento de que o ambiente é agradável e seguro, criando uma atitude básica de confiança face ao mundo.

Se o comportamento da mãe não o satisfaz, a criança desenvolve medos e suspeitas que contribuem para a formação de uma atitude negativa de desconfiança.

A virtude desenvolvida durante este período é a esperança. Este período aproxima-se do estádio oral da teoria de Freud.

2ª Idade: Criança de tenra idade (Dos 18 meses aos 3 anos)

O conflito típico desta idade é:

autonomia versus vergonha e dúvida.

As crianças sentem necessidade de protecção, mas, simultaneamente, gostam de experimentar. Por isso, sentem-se bem sempre que podem exercitar as suas capacidades motoras: correr, puxar, empurrar, segurar, largar, são actividades que treinam e procuram desenvolver.

Se os pais encorajam a criança a exercitar estas habilidades, ela desenvolve o controlo dos seus músculos, o que contribui para o domínio do seu próprio corpo e do ambiente que a rodeia. Deste modo, a criança ganha autonomia.

Se, pelo contrário, os pais a impedem de usar as suas capacidades ou exigem que as usem precocemente, estão a contribuir para o aparecimento de sentimentos negativos, nomeadamente vergonha e dúvida.

É de boa resolução do confronto entre aquilo que ela quer e o que os outros exigem que a criança adquire força de vontade, virtude própria desta idade.

Este período aproxima-se do estádio anal da teoria de Freud.

3ª idade: Criança em idade pré-escolar (dos 3 aos 6 anos)

O conflito típico desta idade é: iniciativa versus sentimento de culpa.

 

O desejo de experimentar mantém-se e amplia-se com a aquisição de novas capacidades intelectuais, como o pensamento e a linguagem, que usa como outras formas de explorar a realidade. Com elas toma iniciativas, idealiza façanhas, realiza tarefas e exibe-se.

Se os pais compreendem e aceitam o jogo activo das crianças, estas sentem que o seu sentido de iniciativa é valorizado.

Se, pelo contrário, os pais se impacientam e consideram disparatadas as suas perguntas, brincadeiras e actividades, as crianças sentem-se culpadas e inseguras, evitando agir de acordo com os próprios desejos.

O conflito bem resolvido conduz à tenacidade, virtude própria deste período. Este período aproxima-se do estádio fálico da teoria de Freud.

 4ª Idade: Criança em idade escolar (Dos 6 aos 12 anos)

O conflito típico desta idade é: diligência versus sentimento de inferioridade.

A criança franqueia o universo da escola, onde se espera que faça grandes aprendizagens, quer sob o ponto de vista académico quer social. Sonha com o sucesso, desenvolvendo esquemas cognitivos para se tomar excelente nas tarefas desempenhadas.

 

Quando as crianças se sentem menos capazes do que os seus pares, passam pela vivência de sentimentos de inferioridade.

Em caso contrário, ao sentirem-se bem sucedidas e acreditarem nas suas capacidades e no seu valor pessoal, empenham-se com prazer no trabalho, desenvolvendo a diligência.

A virtude própria desta idade é a competência ou perícia.

Este período aproxima-se do estádio de latência da teoria de Freud.

5ª Idade: Adolescente (dos 12 aos 20 anos)

O conflito típico desta idade é: identidade versus confusão.

É nesta fase que o adolescente chega à compreensão da sua singularidade como pessoa, adquirindo a noção de que é um ser único, com identidade própria, inserido num meio social onde tem vários papéis a desempenhar. Neste sentido o adolescente vai ter de integrar diversas auto-imagens – jovem, amigo, estudante; seguidor, líder, trabalhador, homem ou mulher – numa única imagem. É a desta única imagem formada de si próprio, e em função dela, que escolhe carreira profissional e um estilo de vida.

Se nos períodos anteriores conseguiram obter confiança básica, autonomia, iniciativa e diligência, os adolescentes constroem mais facilmente a sua identidade.

Se, ao contrário, manifestam dificuldades em saber o que são, o que querem, que opções fazer e que papel desempenhar, vivem situações difíceis de confusão e indecisão.

A virtude desenvolvida nesta fase é a lealdade ou fidelidade. Este período aproxima-se ao estádio genital da teoria de Freud.

6ª Idade: Jovem adulto (Dos 20 aos 35 anos)

O conflito típico desta idade é: intimidade versus isolamento.

O jovem adulto está preparado para estabelecer laços sociais caracterizados pelo bem-querer, amizade, partilha e confiança.

A intimidade requer que o sentimento de identidade pessoal facilite o relacionamento com outrem numa base de compromissos, alteração de hábitos e, mesmo, de aceitação de sacrifícios. Por outras palavras, exige que se esteja predisposto e se seja capaz de regular os ciclos de trabalho, os tempos de lazer e as épocas de procriação com a pessoa com quem se partilha a vida.

As dificuldades em estabelecer relacionamentos íntimos contribuem para que as pessoas se fechem em si mesmas e permaneçam no isolamento.

As virtudes desenvolvidas nesta idade são o amor e a afiliação.

7ª Idade: Adulto (Dos 35 aos 65 anos)

O conflito típico desta idade é: generatividade versus estagnação.

O termo generatividade foi criado por Erikson para designar o comprometimento do adulto em relação ao futuro e à nova geração. As preocupações com os jovens, o seu bem-estar e o desejo de contribuir para um mundo melhor desenvolvem as potencialidades do eu e incrementam a afirmação pessoal do adulto.

Se, em vez de desenvolver actividades que considera produtivas e úteis aos outros, o adulto se preocupa apenas consigo próprio, a sua vida caracteriza-se pela estagnação.

As virtudes adquiridas neste estádio são a produção e a ajuda aos outros.

 8ª Idade: Idoso (Dos 65 anos em diante)

O conflito típico desta idade é: integridade versus desespero.

Normalmente, esta fase coincide com a situação de reforma em que a pessoa se empenha em reflectir, fazendo um balanço da sua vida.

Se se sente satisfeito por considerar que a sua vida teve mérito, surge o sentimento de integridade.

Se a pessoa se apercebe de que nada fez que tivesse sentido e de que já é demasiado tarde para começar de novo, surge o desespero.

A principal virtude desenvolvida nesta idade é a sabedoria.

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~ por Cátia em Fevereiro 13, 2010.

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