Adolescentes

O Adolescente e as transformações

 

            Aos doze anos, aproximadamente, mudanças grandes e rápidas acontecem com as crianças e caracteriza-se uma nova fase de desenvolvimento que se tem por costume dividir em puberdade – época de maiores transformações orgânicas –  e adolescência – em que predominam as transformações comportamentais.

            Nas meninas, a puberdade tem inicio cerca de dois anos mais cedo e estende-se por um período de tempo ligeiramente menor do que nos meninos, sendo nos dois sexos, claramente assinalada pelo crescimento e desenvolvimento de características sexuais secundárias.

            Na adolescência, a tarefa principal está em estabelecer uma identidade pessoal. A medida que faz face aos desafios de independência social e emocional, ele desenvolve, aos poucos, uma “filosofia de vida”, uma visão do mundo e um conjunto de crenças e padrões morais que lhe servem de guia. Isto acontece porque: a) enquanto cresce, os horizontes do mundo intelectual e emocional do adolescente se expandem e passam e incluir idéias que vão além dos prazeres e preocupações simples e materiais dos primeiros anos e ele descobre valores abstratos tais como liberdade, beleza, prioridade direitos democráticos etc., valores esses que não são o simples produto de conclusões próprias e originais do jovem, mas advém também de instrução, exemplo e doutrinação da sociedade em que vive; b) antes que o adolescente abandone com êxito a segurança de dependência infantil ele adquiriu uma noção de quem é, para onde está indo e quais são as possibilidades de chegar lá (Rutter,  1975; Clarke-Stuart et allii, 1989).

            Esse sentido de identidade implica tanto numa necessidade de o indivíduo se perceber como único, separado dos outros, ainda que compartilhando valores, padrões e normas, quanto numa percepção de unidade do próprio eu, num processo de integração da pessoa cujo comportamento está baseado nos seus idéais.

            Provavelmente em nenhum outro momento da vida de  pessoa comum ela esteja mais preocupada com problemas de valores morais e padrões do que durante a adolescência; trata-se de um período de intenso idealismo que inclui algumas vezes a rejeição de normas da sociedade, residindo aí os motivos de os pais temerem pelo equilíbrio do relacionamento familiar quando o menino e/ou menina atingem essa fase.

            Mas, outras características da adolescência,  principalmente as da vida emocional e as ligações de amizade geram preocupação.

            Tradicionalmente se supõe seja a adolescência um período de grande tormento íntimo e de dificuldades emocionais. Rutter (1975) salienta que de fato, nesse período a tendência é sentir as coisas de foram particularmente profunda, sendo comuns as grandes alterações de humor de um momento para o outro, e se desenha para o adolescente em quadro de tormento íntimo em que ele tem sentimentos de auto-depreciação, de miséria pessoal, acha freqüentemente que estão caçoando dele.

            As amizades assumem uma importância participar durante a adolescência, pois tanto são mais íntimas, levando os jovens a partilharem seus sentimentos profundos de um modo não usual em outros momentos da vida, quanto vão deixando de ter os amigos e companheiros escolhidos pelos pais para passarem a contatos com pessoas que o ambiente familiar desconhece por completo. Assim, muitas vezes, é dito que os adolescentes se constituem em uma sub-cultura dentro da sociedade do adulto, alienado desta.

            Entretanto a literatura sobre a adolescência evidência   que a maioria dos adolescentes (até 16-17 anos) continue a confiar e a respeitar os pais, é sensível à aprovação ou desaprovação de seu comportamento por parte deles, segue, de  um modo geral, as suas orientações, compartilha um conjunto de valores, admitem a necessidade de controle e restrição por parte dos mais velhos, não os rejeitando e exercendo um  nível moderado de crítica em relação a eles (Rutter, 1975). Pode-se dizer que quando há alienação entre os pais e o adolescente, com freqüência isto teve sei início muito antes, provavelmente na primeira infância.

            O que os estudos sobre família têm evidenciado (Mombelli, 1990) é que o conviver com um adolescente, promovendo seu desenvolvimento, implica em a família; a)  diminuir gradativamente sua autoridade sem possessividade excessiva, mas também sem permissividade prematura, de forma a que ele vá aos poucos assumindo a responsabilidade de sua independência (ou seja, os pais mantém certo grau de disciplina até que a auto-disciplina do filho esteja devidamente conquistada); b) prover um ambiente amoroso e interessado que dê apoio e segurança, sinalizando que há aceitação, que o afeto permanece; c) estabelecer uma comunicação franca e aberta nos dois sentidos – dos adultos para com o jovem e deste para aqueles; conversando com o adolescente, despendendo Tempo com ele é possível discutir suas realizações, suas metas, as restrições e sua liberdade, os valores e as normas vigentes frente aos do passado, e ao mesmo tempo respeitar suas convicções e atitudes.

            Esses três pontos são, na verdade, muito abrangentes, e comportariam talvez maiores especificações. Entretanto à  guisa de “conselho” alguns terapêutas costumam dizer às famílias que: a) É preciso ter bastante senso de humor, pois muitos dos  comportamentos dos adolescentes são caricaturas ou uma oposição desafiadora frente à forma como o adulto age, pensa, valoriza; b) Valeria a pena que os adultos se lembrassem da própria adolescência; c) É importante ter em mente que a adolescência possui um bom prognóstico, uma vez que os rebeldes de ontem são os pais preocupados de hoje.

            Isto tudo equivale a dizer que o ambiente familiar ao assumir um indivíduo ainda em processo de “vir-a-ser” e que por isso mesmo é confuso, às vezes, instável, ora brilhante ora infantil, capaz de grande projetos e de realizações pequenas, ao mesmo tempo profundamente idealista e crítico necessitaria de uma dose extra de prontidão, paciência e confiança.

B. Do controle externo ao auto-controle

            Ao ser educada a criança passa de uma fase inicial em que o ambiente controla o seu comportamento e até o tipo de situação a que ela vai ser exposta e chega, no final da adolescência, ao auto-controle em todos os aspectos da sua vida. Isto significa que, ao longo do processo de  socialização pelo qual o indivíduo passa, ele forma o que se chama de uma consciência moral, isto é, ele compõe o seu conjunto de normas, padrões, valores e passa agir de acordo com ele, o que possibilita a sua convivência social de modo harmônico.

            Essa evolução, que caminha do controle inteiramente externo até o auto-controle, é bem gradativa, segue uma seqüência de etapas, e depende do desenvolvimento em várias áreas – intelectual, afetiva, social.

            Os muitos estudos nesse assunto (Rutter, 1975; Herbert, 1987) mostram que o ponto essencial para que se inicie a aquisição de padrões e normas pela criança estaria em formação de relação afetiva com o socializador, o que traria  as condições necessárias e suficientes para que surgisse nela  uma disposição para agir de acordo com o comando expresso pelo ambiente.

            Portanto, os fundamentos da consciência moral  remontariam ao primeiro um ano e meio de vida e já se evidenciaram na fase seguinte em que a criança busca autonomia segue impulsos e o ambiente inicia, de um modo bem claro, a colocação de limites para seu comportamento; o fato de ter estabelecido o pré-requisito, que é a disposição para agir de acordo, faz com que ela mais prontamente obedeça às ordens que o socializador  lhe dá “para que não toque num objeto” ou “não suba na mesa”, ou “devolva um brinquedo para o amigo”.

            A medida em que ela se defronta com as regras que o adulto coloca a cada “encontro disciplinar”, ela vai incorporando a noção de permitido, proibido (certo e errado), dando inicio à internalização das normas e valores que, nessa etapa, se caracteriza pelo que se costuma definir como “socializador presente em imagem”; ou seja a criança ainda se limite por um controle externo – é o pai que não deixa, a mãe que não quer –  ou se fizer apanha, e se não for fica de castigo. Por esta razão se observa que para as regras bem estabelecidas não há mais a necessidade da presença do adulto para que ela aja conforme a noção de certo e de errado transmitida pelo ambiente.

            Mas, essa moralidade é ainda muito ligada à conveniência, pois o que pressiona a criança  a cumprir as normas é a obtenção de aprovação e de afeto. Diz-se, em contrapartida, que a sua rejeição pelos adultos dificulta o desenvolvimento de obediência, da mesma forma que a inconsistência das regras a coloca como “experimentalista” dos limites de tolerância dos pais (Biasoli-Alves, 1985).

            Mas o amor e afeição dos adultos para com a criança durante esse período difícil e cheio de conflitos (entre a sua autonomia, seus impulsos e os limites pelo ambiente) são de extrema importância, também para uma boa evolução da sua auto-imagem. As atitudes e o comportamento que os vários elementos da família expressam frente à capacidade da criança em obedecer dão a ela informações sobre sua competência, bondade e esforço vão passar a fazer parte do conceito que ela está formando sobre si mesma, podendo sentir-se envergonhada a cada vez que transgride as normas.

            Mais um pouco de tempo dos quatro e meio aos seis anos aproximadamente, a criança acaba de internalizar as normas e passa a segui-las como se fossem suas; muito da evolução, que faz com que a criança internaliza o controle imposto pelo ambiente, é, nessa fase, auxiliada pelo fato de que simultaneamente está acontecendo uma identificação com os pais que passam a ser vistos como pessoas ideais.

            Esse é então um estágio que se considera como conformista, uma vez que houve uma assimilação das regras da maneira como foram colocadas pelo ambiente sem muitos questionamentos.

            Cada vez mais a criança sabe e o que é errado, e dando inteira razão aos adultos que a educam, ela aceita na sua auto-imagem o que acredita ser a visão que eles têm dela; isto a torna extremamente vunerável ao sentimento de culpa quando transgride as normas, porque se vê  decepcionando àqueles de quem tem uma imagem idealizada.

            Mas, o processo de educação atual que, para uma boa parte da população infantil incorpora desde muito cedo um contato intenso e prolongado da criança com outros ambientes que não o familiar (Escola Maternal, Hotéis de Bebê, Creches) mais a influência que os meios de comunicação de massa têm trazido para essa etapa do desenvolvimento caracterizada como conformista (quanto à obediência às normas do mundo adulto) certa restrição.

            Os teóricos (Herbert, 1987) definiram como limite desse estágio o início da puberdade, estabelecendo paralelos com a evolução cognitiva. Entretanto, observações do cotidiano e dados de pesquisa (Caldana e Biasoli-Alves, 1992) têm evidenciado que muito mais cedo do que os 12, 13 anos as crianças estão contestando as normas colocadas pelos pais, exigindo mais liberdade para ir e vir, e as famílias cedem às pressões. A duração pois dessa etapa de maior conformidade aos padrões, valores e regras familiares acha-se reduzida.

            Há autores (Postman, 1982) discutem que o fenômeno do “desaparecimento da infância” como ela foi vista e conceituada no século XX até a década de 70, mostrando as evidências de uma assimilação progressiva pelas crianças de  padrões de comportamento característicos da adolescência e juventude. Essas colocações se mostram verdadeiras à medida em que se observa o cotidiano das crianças de 8, 10, 12 anos.

            Entretanto, à medida em que a criança adentra a puberdade e adolescência o processo de questionamento é de dúvida sobre si mesmo assume características mais acentuadas, tendo por base a própria capacidade de discutir e argumentar e uma busca de definição de sua posição frente à crise que o adolescente enfrenta. Nesse momento a influência dos próprios pares se dá de maneira crítica, ainda que permaneçam a ligação afetiva com a família a dependência econômica, servindo de contraponto e gerando conflitos internos que se exteriorizam no relacionamento com os adultos.

            Dois aspectos podem ser levantados;  primeiro durante cerca de uma década a família exerceu controle sobre a criança e de forma implícita  ou explicita procurou incutir nela padrões e valores de seu grupo social;  segundo, como consequência ela teve a oportunidade de gradativamente  aprender a se controlar por ter que se conformar a certas regras do ambiente e assimilar um conjunto de “certos”  e “errados”.

            Esse seria então o momento propício para permitir ao adolescente ir experimentando caminhar com suas próprias pernas, para não cristalizar a dependência a adultos (ou a autoridades) determinação do certo e errado de seu comportamento.

            E, sem dúvida, esse questionamento é fundamental ao adolescente; primeiro porque representa uma necessidade muito forte de encontrar a sua verdade quer como  auto-imagem, quer frente aos seus egos-ideais, quer como busca de realização pessoal; segundo porque é um treinamento importante esse de retomar vivências, valores, padrões e normas, repensar tudo, transformando o que  recebeu do ambiente em algo novo, vivo, individual e com o qual ele possa assumir um compromisso (inclusive o de, sempre que possível, passar o que vem de fora pelo seu crivo pessoal; terceiro porque alguns anos mais e esse adolescente estará iniciando o seu papel como transmissor de uma cultura a uma nova geração e, para tanto, ele precisa estar ciente do que ela representa.

            Esse trabalho de composição de uma consciência moral que o jovem executa é intenso, longo e cheio de idas e vindas. Novamente se enfatiza que o ambiente convive com um indivíduo em fase de formação, que precisa de tempo para que sua identidade apareça e ele firme o seu conjunto de valores e normas, sendo capaz de se auto-dirigir nas mais diversas situaçõe

      A TÍTULO DE CONSIDERAÇÃO FINAL

            A complexidade do desenvolvimento humano, as alterações drásticas e aceleradas de valores e normas exigem hoje dos pesquisadores dessas áreas e dos profissionais que atuam  em educação uma postura interdisciplinar e uma disponibilidade para, a todo momento, repensar a realidade social e a inserção dos indivíduos nela.

~ por Cátia em Fevereiro 13, 2010.

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