Conceito de motivação

Conceito de motivação

Etimologicamente, “motivação” deriva da palavra latina “movere” que significa pôr em funcionamento, activar, mover. Daí que se fale de motivação a propósito de comportamentos em que existe um elemento energético que mobiliza o organismo para a acção e um elemento direccional que define o alvo, a meta ou o fim a atingir.

MOTIVAÇÃO

Conjunto de forças que sustentam, regulam e orientam as acções de um organismo para determinados fins.

Ciclo motivacional  

Depois de ter consumido as reservas alimentares, o organismo reclama nova ingestão de alimentos – é a fome. O indivíduo sente uma força interna que o impele para a procura do alimento. Depois de o alcançar e ingerir, o organismo sente-se reequilibrado, desaparecendo a tensão inicial.

Encontramos neste comportamento um ciclo motivacional, constituído pelos seguintes elementos:

1- Necessidade, que é o estado de equilíbrio provocado por uma carência ou privação (falta de alimento).

2 -Impulso ou pulsão, que é caracterizada por um estado energético capaz de activar e dirigir o comportamento (força que move o indivíduo para obter comida).

3 Resposta, que consiste na actividade desenvolvida e desencadeada pela pulsão (procura de alimento).

4 Objectivo, que diz respeito à finalidade ou à meta que se procura atingir com a actividade (ingestão de alimento).

5 Saciedade, que se refere à redução ou eliminação da pulsão (depois do alimento ingerido, a fome atenua-se ou desaparece).

 Saciedade

Necessidade 

 

Impulso 

Resposta 

Objectivo

O conjunto destes elementos permite-nos compreender o comportamento motivado, que apresenta como principais características:

• É orientado para um fim e persiste até que o indivíduo atinja o objectivo.

• É activado e controlado por forças que podem ser internas ou externas, biológicas ou sociais, conscientes ou inconscientes.

• Apresenta variações de pessoa para pessoa e conforme o momento e as situações.

Quaisquer que sejam os comportamentos, todos eles andam associados a motivações específicas, constituídas por determinantes inatas ou adquiridas, fisiológicas ou sociais que, consciente ou inconscientemente, levam o indivíduo a comportar-se de dada forma. Mesmo quando o indivíduo julga conhecer perfeitamente os motivos que o levaram a agir de determinada maneira, pode haver razões ocultas de que nem ele próprio se apercebe.

Tipos de Motivação

O facto de existir uma extrema diversidade de motivos, e de eles interferirem reciprocamente uns sobre os outros, toma difícil e arriscada a tarefa de definir, delimitar e classificar de forma exacta as diferentes motivações.

Mesmo no que respeita a classificações gerais, os psicólogos não são unânimes, pelo que nos aparecem diferentes classificações, consoante a perspectiva em que o psicólogo se coloca e os critérios que utiliza ao classificar os motivos.

Ultrapassando a especificidade de cada uma delas e a variabilidade de termos utilizados pelos diferentes autores, poderemos constatar que, de um modo geral, todas elas apontam, no fundo, para uma diferenciação entre:

Motivações primárias e Motivações secundárias

 

Motivações fisiológicas e Motivações sociais

 

Motivações inatas e Motivações aprendidas

Motivações inatas

Actividades ligadas à fome, à sede, à respiração e à temperatura do corpo, são exemplos de comportamentos inscritos nas motivações inatas. Tendo na base necessidades que reclamam imperiosamente ser satisfeitas, estas motivações nascem com o indivíduo, manifestando-se independentemente de qualquer aprendizagem.

Trata-se de motivações fisiológicas, pois o mecanismo que desencadeia os comportamentos é de origem orgânica e os objectivos a alcançar consistem no restabelecimento do equilíbrio orgânico. Estas motivações inatas ou fisiológicas são comuns a todos os indivíduos, homens e animais, podendo ser interpretadas como mecanismos de defesa da integridade orgânica, na medida em que alertam o indivíduo para a urgência de realizar condutas indispensáveis para a sua sobrevivência. Por isso, mesmo que fosse possível a existência de um homem a viver isoladamente, ele teria absoluta necessidade de efectuar as actividades exigidas por este tipo de motivações.

Seguidamente, ocupar-nos-emos da análise da fome e da sede, exemplos de motivações inatas que se integram naquilo que se designa também por impulsos homeostáticos.

Homeostasia

 Para que o organismo possa sobreviver tem de funcionar equilibradamente.

Se a todo o momento está sujeito a desequilíbrio, tem necessidade de actividades compensatórias capazes de refazer o equilíbrio inicial. Deste modo, quando tem fome ou sede, o indivíduo procura os meios de satisfazer tais necessidades.

O processo regulador que estabelece o equilíbrio do funcionamento orgânico chama-se homeostasia e pode ser esquematizado da seguinte forma:

 Necessidade             Pulsão               Objectivo

                                         

      ←           ←          ←

 

 A uma necessidade orgânica corresponde uma pulsão desencadeadora de actividades orientadas para um objectivo específico. Uma vez atingido o objectivo, a necessidade é satisfeita (saciedade) e a pulsão correspondente desaparece.

 HOMEOSTASIA

 Tendência do organismo em manter a constância do seu equilíbrio funcional, ou em actuar de modo a repô-lo se este for perturbado.

 A homeostasia verificada no organismo assemelha-se ao sistema de controlo utilizado nos cilindros de aquecimento de água. Quando a temperatura da água baixa, o termóstato liga o mecanismo que a fará aquecer; se a temperatura da água atingir grau elevado, o termóstato cortará, automaticamente, a ligação à fonte de calor.

 É ao fisiólogo Cannon que se deve a utilização deste termo no domínio do organismo. É sua a seguinte afirmação: “O ser vivo é um organismo feito de tal modo que cada influência nociva desencadeia uma actividade de compensação para neutralizar ou reparar os danos”.

 A reparação dos danos referida por Cannon pode começar a ser feita por processos fisiológicos espontâneos. É o caso da transpiração e das tremuras que ocorrem quando o corpo está exposto, respectivamente, a temperaturas elevadas ou demasiadamente baixas.

 Ora, estes processos naturais nem sempre são suficientes para o restabelecimento do equilíbrio, pelo que o indivíduo tem de executar actividades suplementares. Assim, se está frio, veste roupas mais quentes, aproxima-se de fontes caloríficas e aumenta as reservas energéticas, pela ingestão de maior quantidade de alimentos. Se está calor, usa menos roupas, procura lugares frescos, diminui a quantidade de alimentos e bebe mais água para compensar a perda de líquido.

 Convém notar que nem todas as necessidades produzem impulsos tendentes à restauração do equilíbrio orgânico. Dois exemplos comprovativos podem ser apresentados:

Se um indivíduo ligar o motor do automóvel numa garagem sem aberturas, pode morrer asfixiado devido à inalação de monóxido de carbono, na medida em que a necessidade de oxigénio não desencadeia impulso activador de um comportamento que vise a sua obtenção.

Também os aviadores, a grande altitude, necessitam de consultar o altímetro para saberem quando devem colocar a máscara de oxigénio.

Fome

Durante muito tempo se pensou que a procura do alimento se devia à sensação de aperto provocada pelas contracções musculares do estômago.

Contudo, investigações mais recentes demonstram que o impulso da fome se desencadeia, mesmo em indivíduos que sofreram a ablação do estômago.

• Hoje em dia, considera-se que, para além das contracções musculares estomacais, a procura de alimento é uma actividade desencadeada por alterações na composição química do sangue que estimulam centros específicos situados no hipotálamo.

Na base desta constatação, estão algumas experiências feitas com animais.

Assim, verificou-se que quando um cão faminto recebia sangue de um cão saciado, as contracções cessavam no estômago do primeiro. Também se verificou que quando se fazia a transfusão inversa, ou seja, de um cão faminto para um saciado, este manifestava as referidas contracções.

Na zona hipotalâmica, situam-se dois centros controladores do comportamento alimentar: um inibidor, outro activador. A lesão do primeiro centro num rato provoca-lhe um extraordinário aumento de peso, porque nunca se sacia e, como tal, não pára de comer. A lesão do segundo provoca a morte ao referido animal, por não sentir fome e deixar de se alimentar.

• Se bem que animais, e mesmo bebés, a quem se permitiu a escolha entre uma grande variedade de alimentos, tenham sido capazes de encontrar uma dieta adequada, em crianças e no adulto, as preferências alimentares resultam, em grande parte, da aprendizagem de costumes sociais.

Sede

Quando a quantidade de água existente no nosso corpo diminui, sentimos a boca e a garganta ressequidas.

Será lícito concluir que reside na boca ou na garganta secas a causa do impulso da sede?

Nesse caso, se as glândulas salivares deixassem de funcionar, o impulso da sede seria mais intenso.

Ora, experiências realizadas por Montgomery, consistindo na ablação de glândulas salivares em cães, mostraram que estes não passaram a consumir maior quantidade de água do que anteriormente.

Não é, portanto, a secura da boca ou da garganta que determinam o impulso da sede.

Pensou-se também que o mecanismo da sede dependesse do estômago.

Bellows fez um corte no esófago de um cão, de molde a impedir a ligação da garganta com o estômago. A água que o cão bebia saía para o exterior através da abertura do esófago.

Sem que o líquido chegasse ao estômago, o cão continuava capaz de avaliar a quantidade de água a ingerir, correspondente à necessidade do organismo.

Para que o cão não sucumbisse, era-lhe fornecido, posteriormente, líquido pela parte inferior do esófago em ligação com o estômago.

Podemos, pois, concluir que o mecanismo regulador da sede é também distinto do estômago.

• Tal como acontece na fome, o impulso que nos leva a ingerir uma dada quantidade de líquido é coordenado por uma zona hipotalâmica. A comprovar, basta referir que, se injectarmos nessa área uma solução salina, o animal tornar-se-á sequioso. Se, pelo contrário, a injecção for de água pura, o animal sequioso ficará saciado.

• Também na eliminação da sede se utilizam meios diferentes (água, vinho, cerveja, sumos, chá, etc.) dependentes da aprendizagem e dos costumes sociais.

Motivações aprendidas

Comportamentos que visam a auto-afirmação, o poder, a competição, a afiliação, o prestígio e o sucesso incluem-se no tipo de motivações aprendidas.

Estas nascem e desenvolvem-se pela aprendizagem que os indivíduos fazem em contacto com os outros elementos do grupo social. Adquiridas por aprendizagem social, são motivações de natureza social e visam a inserção do indivíduo no grupo.

Não se pode afirmar que determinada motivação aprendida esteja presente em todos os seres humanos, pois que se trata de necessidades que não só têm a marca da relatividade cultural, como ainda, dentro da mesma cultura, dependem das aprendizagens e experiências de cada um.

O desejo de competir, de auto-afirmar-se e de ter prestígio só existem porque os seres humanos vivem em comunidade e regem as suas condutas por padrões socioculturais. Além disso, estas motivações visam compensações de natureza essencialmente psicológico-social. De imediato, trataremos algumas motivações aprendidas, como sejam a necessidade de afiliação, de prestígio e de sucesso.

 

 

Necessidade de afiliação

Mais do que qualquer outro, o ser humano é um animal gregário.

O facto de o homem ser um animal gregário explica-nos, até certo ponto, a existência de comportamentos cujos motivos emergem das suas vivências sociais. Trata-se de comportamentos que não ocorreriam se vivesse só.

O medo da solidão e a necessidade de se associar a outrem constituem aspectos com que Atkinson e MacClelland se referem à necessidade de afiliação.

AFILIAÇÃO

Necessidade de estabelecer e conservar relações positivas de afecto com as outras pessoas e de se sentir aceite e amado por elas.

O desejo de afiliação é um dos mais sólidos suportes do grupo social. De facto, ele está na base da coesão grupal e permite compreender a fidelidade que se estabelece entre os diferentes elementos do grupo.

Na convivência com os outros, o ser humano é pressionado pelos grupos em que se integra para executar actos aceitáveis e inibir actos indesejáveis. É afectado por toda uma estrutura cultural de que se destacam, por exemplo, as crenças, as opiniões, os costumes e as tradições, transmitidos, a partir da infância, pela família, pela escola e outras instituições.

O indivíduo enfrenta, pois, um conflito, na medida em que se sente motivado para executar actos dos quais resulta principalmente uma satisfação pessoal, mas cujo controlo e inibição lhe são exigidos pela necessidade de ser aceite pelos outros. Do equilíbrio destas forças motivadoras resulta a adaptação social.

Nem sempre as pressões sociais se mostram eficazes no que respeita à consecução de um comportamento socialmente adaptado.

Muitas vezes, o indivíduo assume atitudes opostas às vigentes no seu grupo social. Rejeita as normas socialmente aceites, revoltando-se contra costumes e tradições, chegando até a adoptar formas violentas de conduta em relação a tudo aquilo que é autoridade social. Trata-se de comportamentos em que o desejo de afiliação é ultrapassado, dando lugar a formas de inconformismo e desobediência.

Outros casos existem em que o desejo de afiliação leva a uma extrema submissão aos outros. Referimo-nos a indivíduos com tal grau de conformismo e obediência que são incapazes de exprimir opiniões ou tomar atitudes que estejam em desacordo com o grupo de que se sentem dependentes. Incapazes de tomar decisões por si sós, curvam-se às exigências dos outros, esperando ver agir para saber como agir. Fugindo à rejeição social com medidas meramente defensivas, as condutas destas pessoas não são bons exemplos de comportamentos socialmente adaptados.

Necessidade de prestígio

Na sua actuação em grupo, o indivíduo tem sempre como objectivo construir, manter e ampliar o seu estatuto social. Sabemos bem como o luxo, o dinheiro e a posse de outros bens são alguns dos fins visados por indivíduos que vêem neles o acesso ao estatuto de uma classe privilegiada.

Se observarmos a sociedade em que nos inserimos, damos conta que, em muitas circunstâncias, os indivíduos actuam movidos por desejos que visam:

• Obter determinado estatuto social.

• Auto-afirmar-se.

• Ser considerado.

• Ser superior aos outros.

• Ser empreendedor.

• Ser alvo das atenções.

• Ser admirado.

• Possuir poder.

• Ser apreciado.

• Ser competente.

• Ser respeitado.

• Ser popular.

Esta lista de objectivos não é exaustiva, mas exemplifica bem a necessidade de prestígio ou auto-afirmação que as pessoas têm, e que é uma motivação que se liga ao estatuto, ou seja, à posição que a pessoa ocupa face ao grupo social.

PRESTÍGIO

Necessidade de ser tido em elevada consideração ou estima pelos colegas e pela comunidade em geral.

Em muitos casos, a aspiração a um estatuto superior radica no desejo de se impor e mesmo de exercer domínio sobre os outros.

Atkinson e MacClelland definem o desejo de granjear o poder como a preocupação de exercer controlo sobre os meios de influenciar os outros e, em especial, como o gosto de dar ordens e de as fazer cumprir.

Necessidade de realização ou de sucesso

O sucesso ou motivo de realização aparece sempre que uma pessoa sabe que o seu comportamento está a ser avaliado segundo padrões de excelência e que as consequências podem ser favoráveis – sucesso ou êxito – ou, então, desfavoráveis – insucesso ou fracasso.

MOTIVAÇÃO PARA O SUCESSO

Necessidade que leva as pessoas a empenharem-se em tarefas difíceis com vista a prosseguir objectivos que são por elas encarados como um desafio.

A dificuldade de certas tarefas funciona em relação às pessoas que sentem esta motivação como um activador ou desencadeador de uma força interna que as leva a apostar na sua realização. As pessoas assim vocacionadas aceitam assumir a responsabilidade de executar os actos necessários para a consecução dos objectivos visados, o que implica correr o risco de falhar. Assim, desejar sucesso tem como contraponto uma outra motivação, que é o medo de fracassar.

• Daí que as pessoas com alta motivação para o sucesso sejam geralmente realistas, sendo moderadas na escolha das metas que pretendem atingir. Se as tarefas demasiado simples não constituem para elas um desafio, também o não constitui a escolha de tarefas muito difíceis. É que, no primeiro caso, fazer o que toda a gente é capaz de fazer não granjeia sucesso. No segundo, são poucas as hipóteses de êxito.

• Diferentemente, as pessoas dominadas pelo medo do fracasso preferem tarefas muito fáceis ou muito difíceis. As primeiras dão-lhes a garantia de não falhar; as segundas não lhes provocam ansiedade por não ser motivo de vergonha fracassar em tarefas que só poucas pessoas conseguem desempenhar.

As pessoas motivadas para o sucesso são, na sua grande maioria, pessoas empreendedoras, apresentando como características fundamentais:

• Gosto em assumir riscos.

• Confiança na capacidade de ser bem sucedido.

• Empenhamento em acções voltadas para o êxito pessoal.

• Desejo de liberdade e responsabilidade individual.

• Vontade de atingir padrões de excelência.

Pessoas com estas características são dotadas de espírito de iniciativa, constituindo-se como líderes carismáticos nos mais variados campos: política, economia, arte, educação, ciência e gestão empresarial.

Motivações combinadas

A fome e a sede foram incluídas na categoria das motivações fisiológicas, porque são reguladas por mecanismos biológicos inatos desencadeadores de impulsos homeostáticos. Estes resultam de carências fisiológicas e impulsionam o indivíduo para comportamentos que virão restabelecer o equilíbrio interno, necessário à sobrevivência do organismo.

O impulso sexual e o impulso maternal a nível da espécie humana são designados por motivações combinadas porque, tal como as fisiológicas, dependem de mecanismos biológicos inatos e, tal como as motivações aprendidas, dependem de outros factores, especialmente dos padrões culturais vigentes nas diversas comunidades.

A diferença entre motivações fisiológicas e motivações combinadas parece, à primeira vista, imperceptível ou mesmo inexistente. Todavia, muitos psicólogos explicitam algumas diferenças, entre as quais destacamos:

  • Sexo e impulso maternal têm base biológica inata, mas não são impulsos homeostáticos. Não surgem como resultado de carências orgânicas perturbadoras do equilíbrio homeostático e susceptíveis de pôr em risco a sobrevivência.

 

De facto, se a fome ou a sede reclamam comportamentos tendentes a satisfazê-las, sob o risco da perda da sobrevivência, a não satisfação do impulso sexual não acarreta a morte do indivíduo.

  • Sexo e impulso maternal são afectados pelos factores sociais num grau muito mais elevado que a fome e a sede.

 

Concluindo, as pessoas quase não diferem no modo como satisfazem a necessidade de oxigénio; já diferem muito na procura da comida; diferem ainda muito mais no modo como se relacionam sexualmente e como “amam” e cuidam dos filhos.

 

Motivação sexual

O impulso sexual gera também uma energia que leva o indivíduo a desenvolver comportamentos para satisfazer a necessidade, posto o que cessa o impulso. Nos animais, impulso, cortejamento e coito processam-se segundo mecanismos naturais, inatos, instintivos e de natureza essencialmente orgânica. No homem, os caracteres inatos e orgânicos manifestam-se essencialmente a nível do impulso, mas o cortejamento e o acto sexual obedecem a imperativos de natureza sociocultural.

Quer o hipotálamo, quer as hormonas produzidas pelas gónadas e hipófise interferem no controlo da actividade sexual.

Porém, no homem, mais importante que esta base fisiológica e inata, são os factores aprendidos no contexto cultural. É que o ser humano possui uma dimensão histórica, abarcando com o peso de uma tradição social, portadora de regras de conduta que se lhe impõem logo após o nascimento.

É assim que a resposta fisiológica, directa e instintiva, vai sendo substituída por outra menos natural, mas de acordo com normas ditadas pelo contexto social em que se desenvolve o indivíduo. Tais normas constituem um todo complexo de que evidenciamos, por exemplo, as crenças e os costumes, o direito e a moral.

Ora, como estes aspectos carecem de universalidade, o comportamento sexual manifesta-se das formas mais variadas e heterogéneas.

Na nossa sociedade, espera-se que o homem tome a iniciativa, convidando a mulher para sair, oferecendo-lhe presentes e pedindo-a em casamento. O mesmo não acontece com os Goajiros, Índios da América do Sul, em que é a mulher que, ao rasteirar o homem durante uma dança ritual, lhe demonstra, assim, o seu interesse.

Estas diferenças de conduta sexual bastam para mostrar como as motivações de origem biológica são modificadas e condicionadas por factores externos, de Índole sociocultural.

O próprio desencadeamento do impulso sexual depende de estímulos ambientais.

Nas espécies animais há certos sinais que atraem os parceiros ou indicam a sua receptividade sexual. Na altura própria, alguns animais emitem naturalmente odores característicos, outros alteram a cor da pele, outros ainda movimentam-se segundo um padrão típico da espécie.

Nos seres humanos, os sinais sexuais são totalmente aprendidos. Entre estes sinais incluem-se todos os aspectos relacionados com o que é fisicamente atraente e que são, como sabemos, especificamente culturais. Por exemplo, nos nossos dias a magreza é considerada “sexy”, mas se recuarmos uns anos, sabemos bem que ninguém punha em causa a afirmação de que “gordura é formosura”. Outros sinais sexuais comuns na nossa sociedade têm muito a ver com o uso de jóias, maquilhagem, perfumes, roupas, gestos, posturas corporais, olhares e outras expressões fisionómicas. Os filmes eróticos e pornográficos ou outras impigens sexuais surtem também efeitos no despertar do desejo sexual.

O comportamento sexual envolve ainda elementos psicológicos fundamentais, constituídos por diversas emoções e sentimentos. No relacionamento sexual dos jovens adultos, a atracção física e o desejo de prazer predominam mas, à medida que o relacionamento se desenvolve e amadurece, outros sentimentos vão desempenhando um papel cada vez mais importante. No relacionamento sexual posterior, a atracção sexual associa-se à afeição, ao amor, ao companheirismo, à estima, à protecção, sentimentos fundamentais para que tal relacionamento se torne estável e duradoiro.

Comportamento maternal

A preservação das espécies depende dos comportamentos maternal e sexual. Se o comportamento sexual conduz à reprodução, o maternal leva à prestação dos cuidados necessários para que os descendentes se tornem aptos a viver em autonomia.

Nos animais estas condutas têm origem instintiva, embora alguns mamíferos, como os macacos, necessitem de algumas aprendizagens.

Nos seres humanos, o comportamento maternal implica condutas diversas que visam os cuidados com a alimentação, a higiene, a protecção e a educação, e envolve ainda um conjunto de sentimentos como o carinho, ternura, atenção, afecto e dedicação. Uns e outros são aprendidos no contexto social, pelo que tratar dos filhos é algo que só é possível após uma aprendizagem que mãe e pai têm de efectuar.

No que respeita à nossa sociedade, o conceito de cuidados maternos tem vindo a sofrer alterações ao longo do tempo e como “ser mãe” implica uma decisão pensada em função de condicionalismos de natureza social.

É óbvio que o comportamento maternal conta com alguns factores de natureza biológica que ocorrem durante a gravidez e amamentação.

Com o prosseguimento da gravidez, o sistema hormonal começa a desempenhar funções importantes no comportamento maternal. Assim, a progesterona segregada pelos ovários provoca o desenvolvimento das glândulas mamárias. No final da gravidez, a hipófise, estimulada pela presença do feto no útero começa a produzir prolactina, que, por sua vez, vai estimular as glândulas mamárias relativamente à produção de leite para a alimentação do bebé.

Contudo, estas modificações fisiológicas não criam na mãe o desejo de amamentar o filho, nem desencadeiam qualquer outro comportamento tendente a cuidar dele. Tais comportamentos devem-se sobretudo a factores ligados à aprendizagem social, pelo que uma mulher que nunca tenha observado como se cuida de um recém-nascido, se vier a ter um filho não saberá tratar dele.

Até agora, ao falarmos de comportamento maternal referimo-nos sempre à mulher que carrega o filho no ventre durante nove meses e que dele cuida durante a infância. Contudo, as expressões “comportamento maternal”, “amor materno” e “impulso maternal” têm hoje um sentido muito mais amplo.

• Se analisarmos o que se passa noutras sociedades, constataremos que o modo de tratar as crianças apresenta enormes variações, algumas das quais nos repugna considerá-las como “comportamento maternal”.

Segundo Margaret Mead, entre os Mundugumores, as crianças são rispidamente tratadas desde o nascimento. Precisam de lutar para que as mães as deixem mamar ao peito e crescem sem afecto e entregues a si próprias.

• Os cuidados maternos podem ser partilhados ou mesmo integralmente assumidos pelo pai, quer por livre escolha ou por temperamento, quer por razões ligadas às profissões exercidas pelo casal, por morte da mãe ou por motivos de divórcio.

• Mulheres que nunca tiveram filhos podem exercer o papel de mãe tão bem ou até melhor do que as mães biológicas. As mães adoptivas são exemplo claro de que a prestação de cuidados e o amor que se dedica aos filhos não dependem de laços biológicos ou naturais, mas de laços psicológicos que se constroem nas interacções socio-afectivas mãe-bebé.

~ por Cátia em Abril 22, 2010.

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